Eu sempre tive um sonho. Aliás, todos têm sonhos. Mas meu sonho é complicado de se entender. Eu sempre tive ódio por uma pessoa e essa pessoa está ligada ao meu sonho. Meu sonho de vingança! A humilhação que passei... Eu tenho que vingá-la! Não é fácil, nunca foi, aturar o que aturei todos os anos que passei com essa pessoa, e agora ela se encontra em minhas mãos. Ela precisa de mim como sempre precisei dela. Sempre tão forte tão cheia de si, sempre os outros são inferiores a ela... Agora, essa pessoa que tanto odeio, está em minhas mãos! E agora, vendo-a deitada numa cama, a beira da morte, eu me deleito com isso. Rio as gargalhadas e digo como essa pessoa teve sorte de hoje estar dependendo de mim.
- Aqui se faz; aqui se paga! – digo ao meu sempre que tenho chance.
Ah claro! Desejo ardentemente me vingar de meu pai! Ou acha que esqueci todas as noites em que espancava minha mãe? Ou acha que esqueci todos os anos em que sumiu? E quando voltou para recomeçar com nosso pesadelo? Acha mesmo que esqueci as frases carregadas de ironia? Que esqueci o modo como estuprava minha mãe na minha frente? O modo como matou minha mãe a facadas? Ora! Esta mesmo achando que sou hipócrita a esse ponto? Posso ser seu filho, podemos ter laços sanguíneos, mas não sou igual a você! É por isso que me renegou todos esses anos? Que nunca me viu como um filho? Que, para você, eu não passava de um lixo? Pois bem, meu caro, agora vamos ver quem ri por ultimo.
- Meu... Filho! Me... Perdoe! – era o que ele sempre repetia.
Perdoar? Agora? Depois de ter feito o que fez, agora que quer perdão? Só para sua alma descansar em paz? E a minha? E eu? E minha mãe? Ele e seu egoísmo! Como posso ser filho desse demônio? O que diabos fiz na minha encarnação passada? Quero que sofra o mesmo que sofri! Não o mato de vez, isso seria compaixão demais. Ele não merece isso. Não sei como ainda perco meu tempo dando-lhe remédios... Mas é por pouco tempo! Logo diminuirei as dosagens, assim ele vai morrendo aos poucos... Esse era meu desejo original, antes de receber uma bomba:
- Filho! Imploro-te! Perdoe-me, por favor! – disse aos prantos, enquanto somente o olhava. – Eu sei que errei muito nessa vida, no entanto quero consertar meus erros! Infelizmente estava cego pelo ciúme por tanto tempo... Antes de morrer, quero te contar algo que vai mudar seu conceito sobre mim. Só não sei se é para melhor ou pior...
- Chega de drama e desembucha! Não tenho tempo para essas ladainhas infames!
- Eu não sou seu pai biológico.
Aquilo me marcou profundamente. Então quer dizer que aquele desgraçado não era meu pai? Então era por isso que sofrera tanto nas mãos dele? Minha sede de vingança só foi aumentada. Se ele achava que com isso iria amenizar o que fez, está muito enganado! Mais um motivo para odiá-lo ainda mais! Estou com vinte e sete anos! Passei boa parte da minha vida acreditando que meu pai me odiava, sendo que meu pai, meu verdadeiro pai nem deve saber que eu existo! Ele me enganou todos esses anos! Ele e... Minha mãe. Isso se ela for realmente minha mãe biológica! Continuo a me perguntar se realmente merecia isso.
- E acha que com essa maravilhosa notícia, eu vá te perdoar? – indaguei, cheio de ironia.
- Sinceramente não sei. Só espero que me perdoe por todas as atrocidades que cometi e que não fique nenhum segredo entre nós.
- Que grande mentiroso! – exclamei sarcástico. – Aposto que só disse isso para não ficar com peso na consciência por ter sido um péssimo pai!
- Carlos, me escute...
- Me escute você! – gritei. – Acha mesmo que vou te perdoar depois disso? Poderia ter me dito, do que espancar minha mãe, estuprar minha mãe, matar a minha mãe! Tudo na minha frente! E acha que contando que não é meu pai vai livrar a sua barra?!
- Por favor, Carlos...
- Por favor, digo eu! Aposto como meu pai deve ser igual a você, não é? Você o conhece! Daí resolveu fazer o mesmo com ela para sentir o mesmo gostinho, não foi?
- Carlos! – gritou ele. – Você nasceu de um estupro! Não sei quem é seu pai...
- AH! Não disse? Você achou mais interessante seguir o exemplo dele do que ajudá-la!
- Eu sei! Eu sei esta bem? Eu sei!
- Então a matou? Seu assassino hipócrita egoísta! Só parou para pensar em você!
- Carlos! Por favor, já não me basta carregar a morte de sua mãe nas costas, você vai ter que jogar tudo na minha cara?
- Vou! Vou e vou jogar até quando você morrer! E vou continuar jogando isso na sua cara!
Ele calou-se. Ficamos num silêncio sepulcral. Aquele silêncio que sempre me invadia nos momentos de solidão. Uma solidão na qual se acostumara. Uma solidão onde queria ardentemente se livrar dela, mas que já faz parte de si. Assim como a lembrança da morte de minha mãe...
- Em 15 minutos, ele estará aqui! – sentenciou a mãe, na qual se chamava Isabella.
O garoto, com seus doze anos de idade, se encolhera na cadeira que fazia conjunto com a mesa da cozinha. Logo seu pai estaria em casa, para mais uma seção de espancamento. Nunca passou pela cabeça do menino que sentiria tanto ódio por alguém como sentia daquele homem. Aquele que se dizia ser seu pai. Pai uma pinóia! Se fosse pai não faria o que sempre faz. Um dia acabaria matando Isabella de tanto espancá-la. Isso era algo que Carlos não perdoaria tão facilmente...
- Cheguei!
- Boa noite, querido! – disse Isabella, com uma alegria fingida. – Como foi seu dia?
- É... Até que foi bom...
- O jantar já está pronto.
- aposto como é a gororoba de sempre...
- Se não gosta da comida vai embora! – exclamou Carlos, sem pensar.
- É essa a educação que dá para esse menino?!
- Desculpe, eu... Eu falei sem pensar, e...
- Cale-se garoto! – o homem começou a tirar o cinto que prendia a calça. – Vou fazer você me respeitar, seja por bem ou por mal.
- Não, meu bem! Não faça isso! Ele é só uma criança! – interveio a mãe. Ficando na frente de Carlos.
- Então ta! Que apanhe você! – e então o homem desceu o cinto na mulher.
Carlos olhava aquilo horrorizado. Sentia-se impotente quando o pai batia na sua mãe. Seus olhos arregalaram-se mais em pavor ao ver o pai abrir a calça e rasgar a calcinha da mulher, aproveitando-se do fato dela estar de saia. Jogo-a na mesa com violência, abrindo suas pernas e a penetrando sem se importar com o garoto que chorava e gritava inconscientemente. Isabella gritava de dor e desespero e o homem não parava. Ria, gemia e gritava como se gostasse de toda aquela balbúrdia. Carlos não parava de gritar e chorar, pedindo pelo amor de Deus que o homem parasse, mas parecia que não era ouvido. Depois de duas horas, o que pareciam duas décadas, o homem se sentiu satisfeito e saiu, como se nada houvesse acontecido. O garoto levantou do chão na qual estava sentado, coisa que nem se lembrara de ter feito, foi até a mãe que chorava sem pudor. A dor que sentia tanto física, quando corporal eram gritantes. Sangue manchava o chão. Carlos abraçou a mãe. Após alguns minutos o pai voltou e encontrou os dois ainda chorando.
- Vem cá?! Vão continuar com esse melodrama até quando? – esta fala já foi o suficiente para saberem que ele estava bêbado. – Vamos! Digam-me! Até quando isso vai durar? – ele avançou até a mulher, pegando-a pelos cabelos.
- Larga ela! – gritou Carlos, tentando trazer a mãe para mais perto de si e afastá-la daquele homem.
- Vaza daqui garoto! Não vê que ela apanha por sua causa? Que você só estraga a vida dela!
- Vá embora meu filho! Deixe isso com a mamãe!
- Isso! – disse ele, arrastado. – Ouça o que sua amada mãe está dizendo!
- Não vou sair daqui!
- Ótimo! Então vai ver o sofrimento de sua mãe terminar! – e com isso ele pegou uma faca que havia na mesa e a esfaqueou até perceber que ela já não se mexia mais.
Desde então Carlos se fechou. Amizade? Pra que? Ele causava sofrimento nas pessoas, então para que tornar a vida delas um inferno?! Seus medos e seus erros devem ser enterrados com ele. Com ele e com Gabriel Almeida da Silva. É tão irônico! O nome da pessoa que mais odiou, da pessoa que mais desgraçou a sua vida, tem nome de anjo! Aquele homem era mais o capeta em terra do que um anjo. Era por isso que não o matava de vez. Teria que ser devagar... Ele teria que sofrer antes de morrer.
- Acha que pagando na mesma moeda vai obter o que quer?
- Cale a boca seu bastardo!
- Bastardo? – disse sarcástico, soltando uma curta risada irônica. – Olha quem fala!
- Será que até mesmo quando esta para morrer você vai me humilhar?
- Enxergue o óbvio, Carlos! Você quer se vingar de mim pelas coisas que não fez...
-... E não precisaria fazer, se você não maltratasse a minha mãe!
- Grande desculpa!
- Desculpa é o que você está dando pelo o que fez! Não agüenta o peso que carrega nas costas? Quer despejar um pouco em mim?
- Talvez... E com isso você perceba que não sou só eu que tenho culpa.
- Ora! Poupe-me! – disse irônico. – Acha mesmo que vou cair nessa? Ela me teve por que quis! E você poderia muito bem tê-la largado do que tê-la matado!
- Não a larguei porque ela me pediu!
- E até parece que você se importava com isso!
- Me importava sim! Importava-me por que a amava!
- Como é que é? – indaguei incrédulo. – Você o que? – não agüentei e cai na gargalhada. – Você a espancou e a estuprou desde que me conheço por gente! Tudo porque a amava? – ri de soltar lágrimas de meus olhos.
Gabriel calou-se. Sabia que nada que dissesse mudaria a cabeça do rapaz. Também pudera! Fizera tanta coisa que não se orgulha nem um pouco de ter feito. Matara uma pessoa e criara um homem cheio de rancor e ódio e que possivelmente faria o mesmo que ele quando tiver sua família. Não poderia fazer mais nada a esse respeito. O câncer já o danificara demais. Sem contar que já estava velho. Perdera uma grande chance de ser pai. Nunca conseguiu e mesmo que quisesse nunca conseguiria. Era tarde demais, mas... Só agora percebia seu enorme erro.
- Sabe... Mesmo não adiantando de nada, eu vou te contar uma coisa...
- Mais uma?
- Mais uma.
- Então conte. Não tenho outra coisa para fazer a não ser te escutar.
- Você mudou muito... Mas não é isso que quero lhe contar. – Gabriel respirou fundo. – Eu sou estéril.
- Puxa! – exclamou passando a mão no queixo. – Só falta você me contar que é homossexual! – Gabriel riu.
- Pelo menos você tem senso de humor.
- Mas não foi uma piada.
- Eu sei que não.
- Que bom que sabe!
Naquela noite, Carlos se sentia confuso. Eram informações demais para um só dia. E por mais que tentasse pensar com clareza, mais sentia ódio daquele homem. E por um motivo que até ele desconhecia, começou a pensar em seu futuro. Coisa que nunca fizera. Era formado, tanto no colégio como na faculdade, tinha seu emprego, tudo funcionava muito bem. No entanto, a única coisa que pensava era se vingar de Gabriel. Agora que já estava quase realizando seu sonho, não teria mais nada para fazer. Não tinha uma namorada, aliás, nem se lembrava da sua ultima namorada. Isso se tivera uma. Riu com amargura na penumbra de seu quarto. Por Deus! Tinha vinte e sete anos e nunca namorara na vida! E tudo pela sua sede de vingança. Com isso chegou a quase desistir de tudo e o perdoar, mas... O sangue gotejando no chão o impedia. Não abandonaria tudo pelo o qual lutou só por causa de pensamentos sentimentalóides! O mataria e pronto! Gabriel pode até estar velho e doente demais para se manter de pé, mas seria menos um monstro no mundo! Percebendo que não havia mais motivos para continuar com aquela brincadeira, Carlos levantou-se da cama, foi até a cozinha, pegou uma faca e foi até o quarto do - como se intitulava antes – seu pai. Abriu a porta sem nenhuma delicadeza.
- Resolveu o que vai fazer comigo?
- Ah! Então está acordado...
- Estava quase dormindo quando você quase arrancou a porta.
- Tudo bem, isso não vai fazer diferença agora.
- Nunca pensei que você seria tão sangue frio. – comentou Gabriel, ao ver o braço de Carlos levantando, pronto para dar a facada.
- Tanto quanto você.
- Esqueceu que estava bêbado?
- Esqueceu que você se lembra claramente daquele dia? Já é motivo suficiente para mim.
- Tudo bem. Faça o que quiser então. – E Carlos o fez.
Fazia um frio intenso naquele dia de inverno. Por ele, Carlos, não estaria ali. Mas se não viesse iriam estranhar, afinal, todos pensavam que ele, Gabriel, era seu pai. E também por estar na casa do falecido antes dele morrer. Fora tão fácil enganar a todos. Principalmente a polícia. Inventara uma história qualquer e eles acreditaram, mesmo porque pra que investigar a morte de um velho pobre?! Carlos suspirou entediado. Não tinha nada para fazer ali e não conseguiria inventar qualquer desculpa para finalmente ir para sua casa. Porém... Algo inesperado aconteceu: Havia poucas pessoas tanto no velório, quanto no enterro, mas uma jovem acabou se destacando no meio de tão pouca gente.
- Soube que você era filho do meu finado tio... – então ela era sobrinha dele? -... Meus pêsames!
- Sim eu... Era filho dele.
- É uma pena que ele tenha morrido assim.
- Não tenha tanta certeza. – disse enigmático.
- O que quis...
- Acho melhor você nem querer saber!
E quem disse que mulher escuta? Acabamos nos encontrando mais vezes e aos poucos fui contando o que acontecera comigo, e, apesar de achar que ela fugiria de mim, Raquel, sobrinha do demônio, ficou mais perto de mim. O tempo passou e hoje - agora estou com trinta e cinco anos – tenho uma família bonita e unida, trato Raquel feito uma rainha e faço de tudo para que um dia meus filhos não tenham a vida que tive. Não tenham meu grande sonho... Meu sonho de vingança...